Sigo escrevendo assim
já que se há de escrever
12 de março de 2025
Bum
O fone de ouvido lhe levou para aquele quarto de novo.
O chuveiro estava ligado enquanto ele tomava banho.
Era a mesma música que tocava agora. Como naquele dia, talvez eles estivessem ouvindo a mesma música, ao mesmo tempo. Mas já não eram mais as mesmas pessoas. Mal se sabiam existentes nesse mundo. Mal sabiam se o outro ainda respira do outro lado de lá. Muito menos se suspiram ainda um pelo outro.
Quando eu te encontrar
13 de agosto de 2024
Ainda que eu quisesse poder
De tudo o que não foi possível, ficaram os quereres que nunca serão vividos.
Ler todos os livros ainda não lidos da estante que fica no quarto.
Ver a nova cama chegar, o sofá escolhido para o quarto de hóspedes.
A película da janela, pois a vista e o horizonte não podem ser perdidos.
Todo o resto se renova. Paredes, tetos, pisos quebrados. E toda a construção que ainda não se sabe: de dentro pra fora, ou de fora pra dentro?
Mensagens um dia serão respondidas novamente para uma nova pessoa. Porque você também se renova. Mesmo que um pouco mais apodrecido.
Uma nova montanha-russa de medos e desejos que terminará em outros
ainda que eu quisesse poder.
Há muitos livros na estante e alguns tantos nunca serão lidos,
ainda que pudesse querer.
16 de julho de 2024
Avesso
Alguma coisa acontece quando começo a ouvir um pouco mais da sua vida, quando consigo olhar um pouco mais fundo nos seu olhos. La dentro consigo enxergar a sua alma, olhando a minha. Poesia, que às vezes transborda em lágrima.
Na mesma velocidade que acontece, também desacontece quando cruzo a porta, sozinha, para voltar talvez nunca. Entro no elevador e aqueles quase dois minutos que me levam à terra vão abrindo centenas de micro-rupturas para longe desse micro-cosmo que vivemos incrustados no meio da cidade, ora barulhenta, ora cintilante.
A cidade, ora palco, ora espectadora, para essa utopia que nos permitimos, vez ou outra, viver.
29 de junho de 2024
Passagem
Um dia cheguei na sua casa e você falava ao telefone, a musica alta contrastou com o beijo sem som que você me deu. Deitei no sofá sozinha, o céu tinha as cores mais lindas e me permiti não pensar em nada. Sabia que as nuvens estavam se movendo, porque é isso o que elas fazem o dia todo. A ansiedade saiu de mim por alguns instantes, porque eu sabia exatamente o que iria acontecer nos próximos minutos e nas próximas horas. A natureza é acolhedora nesse sentido. Mesmo assim, o céu traz surpresas majestosas. E eu agredeci aquele instante eterno. Aquele momento mágico e tão comum me esquentou por dentro e preencheu vazios que já nem sabia que existiam. O crepúsculo abriu as portas para o breu da noite cheia de mistérios, assim como nós. Você veio e se aconchegou em mim, sereno. Aos poucos as luzes foram acesas, bem aos poucos. Não era preciso iluminar tanto, a passagem entre uma vida e outra, afinal, nunca é muito clara.
11 de junho de 2024
poeira cósmica
Não sei se eu já te contei. Em 2017 fiz meu aniversario numa taqueria que ficava ali no Copan, onde hoje fica o Cuia e a livraria Fauna. Eu ainda era muito apaixonada por você, do tipo assim meu coração palpitava se alguém me falava de você e tal. Eu não te chamei pro meu aniversario, claro. Depois que você escolheu outra mulher, enfim. Ainda assim fui la e fiz meu aniversário do lado da sua casa. Teimosa.
Como todo comércio ali embaixo, a taqueria era toda envidraçada. Dava pra ver tudo ali de dentro, e eu estava na minha terceira (talvez?) margarita. Olhei para a passagem da São Luís e você estava ali, vinha andando na direção do restaurante. Meu coração veio na boca, eu não conseguia falar nada. Eu só apertei a minha melhor amiga, sussurrei no ouvido dela “vem comigo AGORA”. Ela entendeu, olhou para onde meus olhos estavam olhando, viu o que eu estava vendo e sentiu o que eu estava sentindo.
Você continuou andando, em direção ao Copan, entrelaçado com ela. Eu nem sabia o nome, não precisava nomear nada. Era sua felicidade que me nomeava por dentro, era corrosivo. Vocês estavam – tão – felizes, era triste demais. Eu não sai do restaurante, fiquei ali de camarote, escondida, vendo o casal passar. Se você sentir saudade, por favor não dê na vista. As lágrimas querendo formar atrás dos meus olhos. A Carol, coitada, já chorando.
Muitos anos depois nós tomamos um capuccino numa tarde tranquila, naquele mesmo espaço em que eu estava quando te vi passando exibido de felicidade. É como se a sua felicidade tivesse vazado naquela passagem, como óleo, que não sai por nada. Sempre que passo ali, eu sinto o cheiro daquele dia, a dor daquele amor me volta imediatamente.
Mesmo assim, naquela tarde com capuccino tentamos ressignificar. Eu já estava grávida, mas não contei – porque ainda não estava contando para ninguém e você era o ninguém que eu realmente não queria contar. Nos despedimos e você me perguntou “somos amigos agora, então?”. Como responder naquela fração de segundo se sim ou se não, antes de cada um andar pra um lado diferente, caminhos e vidas totalmente opostos. Era melhor sentar de novo e começar outro café – coado, para ele.
A pergunta ficou na retorica do futuro, solta ali no eco que leva até o 32º andar – la em cima alguém escutou. As palavras ficaram presas entre as dobras e curvas do prédio como a dançarem em outra dimensão. Um dia me reencontrariam lá no alto da torre. Depois de voltas e voltas que o sol deu ao redor do Copan – aquele eco chegou até mim de novo, bagunçado, embrulhado com os minutos daquela noite corrosiva. Era a minha chance de deixar aquele vapor de memória desvanecer como poeira cósmica diante da cidade. Era possível enxergar dali as montanhas, e além. O horizonte é libertador.