E na última vez, abriu mão de estar acompanhada, mas sozinha. Muito bem acompanhada. Era melhor que estivessem juntos, mas que dentro dela já não houvesse a urgência de sentir. Era a partir desse desprendimento do sentir que conseguia enxergar o amor de verdade. N’outras vezes, talvez amores ainda maiores foram deixados de lado, para que pudesse amar mais. Para que, desligada do sentir na pele, conseguisse sentir no coração o verdadeiro significado do amor. Sabia exatamente quais eram os seus passos para o desprendimento, como desligaria cada fio que a ligava fisicamente a ele. Mais do que uma simples vontade, a urgência lhe fazia mal. Podia não saber ser diferente do que afirmava. Podia tentar. Talvez não lhe restassem mais tentativas, ou talvez as tentativas estivessem agora apenas dentro dela. Sentia que poderia ser tudo aquilo que havia estudado para ser, não em livros, mas em vida mesmo. Podia viver cada segundo, mas não era assim que conseguia, os segundos estavam à sua frente e logo, antes que percebesse, já haviam passado, ela já havia jogado as suas bombas e tudo virara apenas destroços de uma paixão. Dos destroços, de toda essa ruína, ainda com poeira alta, ela reviveria as convicções de não serem mais, as certezas que agora ela tinha com ela mesma, construídas a partir de muros recém formados, de pedras recém achadas. Sempre haverá para onde ir, o que fazer e com quem dividir. A vida não lhe deixaria para trás, mas era apenas assim que conseguia se mover, largando bombas, explodindo as edificações que não estavam firmes. Como um mal arquiteto, media erroneamente os espaços entre as paredes e quando o prédio alto se empunha, lá estavam as pequenas janelas. Ninguém gostaria de viver assim. E como um arquiteto esquecido, as portas não haviam sido construídas. Não havia nem mesmo saída dentro de toda essa construção.
Gostaria mesmo de viver nessas casas com portas largas, em que as paredes nem fossem percebidas, em que o vento corresse sem ter hora para acabar. E mesmo com o frio lá fora, esse tipo de casa ainda é quente, mesmo com frestas nas paredes mal acabadas, o amor não escapava. Ele conseguia ser mantido ali. Não preso, simplesmente ali, como o vento que passa e fica um pouco mais para se esquentar. Simplesmente para estar ali.
Muito bom Paulinha!
ResponderExcluir"Gostaria mesmo de viver nessas casas com portas largas, em que as paredes nem fossem percebidas, em que o vento corresse sem ter hora para acabar."
Muito bom mesmo!