Não sei se eu já te contei. Em 2017 fiz meu aniversario numa taqueria que ficava ali no Copan, onde hoje fica o Cuia e a livraria Fauna. Eu ainda era muito apaixonada por você, do tipo assim meu coração palpitava se alguém me falava de você e tal. Eu não te chamei pro meu aniversario, claro. Depois que você escolheu outra mulher, enfim. Ainda assim fui la e fiz meu aniversário do lado da sua casa. Teimosa.
Como todo comércio ali embaixo, a taqueria era toda envidraçada. Dava pra ver tudo ali de dentro, e eu estava na minha terceira (talvez?) margarita. Olhei para a passagem da São Luís e você estava ali, vinha andando na direção do restaurante. Meu coração veio na boca, eu não conseguia falar nada. Eu só apertei a minha melhor amiga, sussurrei no ouvido dela “vem comigo AGORA”. Ela entendeu, olhou para onde meus olhos estavam olhando, viu o que eu estava vendo e sentiu o que eu estava sentindo.
Você continuou andando, em direção ao Copan, entrelaçado com ela. Eu nem sabia o nome, não precisava nomear nada. Era sua felicidade que me nomeava por dentro, era corrosivo. Vocês estavam – tão – felizes, era triste demais. Eu não sai do restaurante, fiquei ali de camarote, escondida, vendo o casal passar. Se você sentir saudade, por favor não dê na vista. As lágrimas querendo formar atrás dos meus olhos. A Carol, coitada, já chorando.
Muitos anos depois nós tomamos um capuccino numa tarde tranquila, naquele mesmo espaço em que eu estava quando te vi passando exibido de felicidade. É como se a sua felicidade tivesse vazado naquela passagem, como óleo, que não sai por nada. Sempre que passo ali, eu sinto o cheiro daquele dia, a dor daquele amor me volta imediatamente.
Mesmo assim, naquela tarde com capuccino tentamos ressignificar. Eu já estava grávida, mas não contei – porque ainda não estava contando para ninguém e você era o ninguém que eu realmente não queria contar. Nos despedimos e você me perguntou “somos amigos agora, então?”. Como responder naquela fração de segundo se sim ou se não, antes de cada um andar pra um lado diferente, caminhos e vidas totalmente opostos. Era melhor sentar de novo e começar outro café – coado, para ele.
A pergunta ficou na retorica do futuro, solta ali no eco que leva até o 32º andar – la em cima alguém escutou. As palavras ficaram presas entre as dobras e curvas do prédio como a dançarem em outra dimensão. Um dia me reencontrariam lá no alto da torre. Depois de voltas e voltas que o sol deu ao redor do Copan – aquele eco chegou até mim de novo, bagunçado, embrulhado com os minutos daquela noite corrosiva. Era a minha chance de deixar aquele vapor de memória desvanecer como poeira cósmica diante da cidade. Era possível enxergar dali as montanhas, e além. O horizonte é libertador.
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