11 de junho de 2024

(tudo o que foi dito no silêncio)

depois de anos, talvez ja nao fizesse nem mais sentido as poucas mensagens trocadas, vez. Ou outra. Na volta de algo ou indo para o inicio de mais uma semana, de repente meses e consequentemente anos se passaram. Nunca fez sentido (pra mim) falar de medo, porque medo a gente engole com (um tanto de) vinho que é pra esquecer e dar coragem. Eu sempre esqueço do medo. Mas fazia muito (mais) sentido para você se agarrar a ele. 

Naquela noite (talvez) não (mais). 

Eu te guardei quentinho, como na noite que você se enrolou no cobertor no meu colo, como nas tardes de sol se pondo no horizonte infinito.

Você disse agora que queria (ou preferia) não ter medo. Que o medo te fez ir pra longe, as vezes visitar por saudade (e por alguma esperança), mas que algumas semanas, ou meses, não foi (tao) solitário, que conseguiu achar outras companhias e esquecer (tambem de mim). Engoli seco porque aquilo me soava um tanto familiar. “Todas elas não eram você”, mas você não disse isso. Porque você é sempre uma oitava acima do que eu ja vivi, e escutei. 

Eventualmente nos calamos num olhar prolongado, desses que chegam até a alma. Você, brincando (ou nao), perguntou “vamos fazer isso mesmo?” E dessa vez consegui responder “ainda bem”. Parecia (agora) o tempo certo, se é que isso existe, mas (sim) muito mais pra você e (ainda bem) ainda para mim.

17 de outubro de 2016

Adeus

Ele nunca mais voltou.
Acordou um dia mais feliz do que nos outros
e na hora de decidir a camisa, de repente os cabides sem cor pediam um verde.
Esperança.
fez compras. aos poucos, coloriu a vida.
Ele disse que precisava se achar.
Queria respirar ares mais limpos e encontrar almas mais antigas.
Queria enxergar as cores que ela enxergou, nele e no mundo todo.
Alugou o apartamento, vendeu o carro. Depois, comprou a passagem com destino certo: ele.
No canto da mala, no fundo da alma, empacotou a carta que ela escreveu, porque é possível levar amor em carta.
Pegou a segunda à esquerda, saindo do seu prédio, do outro lado do mundo, ou aqui no centro de São Paulo. se encontrou finalmente.
E nunca mais voltou.

20 de setembro de 2016

Rotina

as mãos se soltaram quase ao mesmo tempo, tão imperceptível quanto aquele dia que se grudaram pela primeira vez. Seria impossível dizer se ela estava doente do estomago ou se ele é quem nunca falou que o coração doía. Calaram-se.
A rotina, aos poucos, engoliu todo aquele espaço entre as palavras não ditas. Os olhos se abriam pela manhã, o dia todo era a batalha do sorriso que lutava contra as lágrimas.Tomava o café com uma pitada de canela e esquecia a dor com uma pitada de saudade. Depois já não se sabia mais o que era aquele desconforto dentro do peito. Talvez fome. Talvez falta de ar. Falta.
Mas não há de ser nada, o sorriso era o escudo pra todas aquelas pessoas que insistiam em exigir a felicidade. E de repente, achava-se que estava tudo bem. Talvez até sorrissem genuinamente, vez ou outra. Mas era só sorriso de rotina, não era sorriso de alma.
Quando os olhos finalmente fechavam a noite, a cabeça colada no travesseiro, era possivel sentir novamente. Aquele unico sentimento verdadeiro, impossível de ser permitido durante todas as outras horas de todos os dias. Todo dia. A rotina disfarçava a dor daquele luto que se leva de alguém que ainda vive. 


16 de agosto de 2016

Silêncio do adeus

Você já se despediu e eu nem percebi.
Me deu um beijo antes de cruzar a rua pra nunca mais voltar e eu nem percebi que você já sabia: aquele seria o último.
Você se despediu de mim sem dizer nada, e eu nem percebi que quem não diz nada está dizendo tudo o que não quer.

2 de agosto de 2016

Conta-gotas

Sempre achei que não tinha muito dentro de mim pra sair entregando tudo pra alguém. Assim, a minha entrega era no conta-gotas, não teria tanto para durar uma vida toda. Eu pingava algumas gotas e saía correndo com o pote quase cheio na mão, jurando que estava prestes a acabar e eu estava salvando o pouco de mim que ainda restava. Eu não podia me esvaziar.

13 de setembro de 2014

Belém

A cidade nasce e dorme.
Assim como eu.
Talvez nos mesmos horários que eu.
Eu finjo que o dia passa. E eu tento passar pelo dia, tento atravessar e fazer parte das horas que nascem e morrem enquanto o sol queima na cabeça de todo mundo que anda nesse asfalto que, por algum milagre, não derrete.
Menos importante do que o asfalto que não derrete é a falta de dia que tenho dentro de mim. Como se eu não vivesse neste tempo de relógio: calculado em segundos, minutos e horas. É o meu frequencímetro que mostra se o dia está passando mais rápido ou mais devagar. As vozes ao meu redor, com as quais raramente interajo, não ultrapassam a fina camada entre o meu mundo e tudo ao redor de mim. Talvez eu não deixe. Talvez elas não queiram. Talvez seja a mistura destas incompatibilidades - talvez as nossas vozes nunca sejam ouvidas e nunca ultrapassem a barreira dos mundos que nos separam de todas as pessoas ao nosso redor. Quando estou aqui, o mundo parece mais vazio, porque eu sou um pouco (mais) vazia aqui. Porque não há outras vozes que eu deixo entrar no meu mundo. Por que o meu mundo aqui me basta? Por que me bastaria em qualquer lugar? Talvez. É quase uma punição perceber a possibilidade de viver em solitude (quase) plena. Quase me sinto mal pela sociedade que suplica por companheiros  - se às vezes também não os desejasse. Sociedade que suplica por vozes a serem ouvidas - quaisquer que sejam, trazendo a mais banal mensagem. Arrogância minha achar que não sou banal. Inferioridade minha achar que não tenho nada a acrescentar na vida destas dezenas de pessoas com as quais não me identifico e que enxergam em mim alguém que não se encaixa aqui. Alienação minha achar que somos assim tão diferentes.
A cidade nasce e dorme.
Queimando e quase ilhada.
Assim como eu.

4 de março de 2014

Amor

Eles se conheceram numa terça-feira de carnaval, há meio século e mais um pouco.
Ele tinha namorada, mas mesmo assim chamou a morena para dançar - e, embalados pela melodia da festa, rodopiaram no salão noite adentro.
Ela disse que não havia homem mais bonito no salão, ou no mundo.
Veio a quarta-feira de cinzas, toda a quaresma e nada dele aparecer novamente.
Na falta de whatsapp, ela esperou em vão por algum sinal de fumaça que fosse. Mas, nada.
Talvez não fosse para ser, ela pensou.
Mas no domingo de Páscoa, eis que ele ressurgiu das cinzas e foi procurá-la onde não poderia deixar de encontrá-la, na missa. Ela já nem esperava mais olhar novamente aqueles olhos azuis vibrantes pelos quais se apaixonara.
Ele terminou o namoro e pediu-a em casamento. Nunca mais passaram um dia sem se amarem, até que a morte um dia a levou, antes dele, como ela tanto pediu, desde aquele domingo de Páscoa: "Deus, por favor, traga-o para mim e não me deixe viver um dia nesta terra sem que ele esteja respirando ao meu lado".
Amém.